quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
Ouvir e ser ouvido
Varias vezes acontece que sei de alguma noticia ou acontece alguma coisa e tenho vontade de comentar com determinada pessoa e lembro que ela já “foi embora”; só “ela” ia entender aquela fofoca, aquele parente, aquela duvida, aquela dificuldade, aquele medo, aquele sucesso, aquela compra, aquela descoberta.
Bem, como diz o ditado chinês: “o que não tem solução já está solucionado”
Perder nossos interlocutores faz parte também de envelhecer.
Então...é preciso encontrar uma saída.
É dito que:
O bom resultado das terapias acontece na medida em que a pessoa é ouvida com atenção e interesse.
Nas outras relações também.
As relações são tão mais íntimas quanto mais liberdade for dada no dialogo.
Numa relação qualquer que seja em que há medo da espontaneidade, onde há uma ameaça de abandono caso o tema não agrade ...a situação está delicada e a solidão à vista.
Acontece que se quisermos apenas nos relacionar com quem sabe ouvir...não vai dar.
Então o que fazer?
Plano B:
* escolher outra pessoa e avisar que quer ser ouvido (a)
*questionar-se de onde vem realmente a necessidade de ser ouvida: buscar aplauso, buscar apoio para julgamento, querer fama, cavar uma nova oportunidade, ou???
*guardar silêncio muitas vezes organiza porque apenas a própria pessoa conhece a história inteira.
*refletir sobre que às vezes os comentários dos outros aborrecem mais do que a ausência de interesse.
*há assuntos que só interessam a nós mesmos ..não aos outros...
*procurar um terapeuta talvez seja uma boa sugestão
Se tiver mais sugestões, mande por favor.
Enquanto isso....
*abrir-se para ouvir outros.... para esperar alguém que te ouça...ajuda a levar o tempo com mais alegria
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Budismo não é terapia
Muitos procuram os treinamentos budistas orientados por profissionais da área da psicologia.
Os treinamentos da meditação budista não substituem o trabalho da terapia; embora ambos tenham como objetivo promover o encontro com a natureza livre da mente e a dissolução das neuroses e dos efeitos dos traumas.
O treinamento budista tem como base fundamental a meditação.
Terapia pode ser facilitada pela meditação; meditação pode se beneficiar da terapia.
Há 2 momentos na meditação: concentração ( atenção) e conscientização ((perceber-se).
Na concentração aprendo a focar, numa imagem, numa flor, numa pedra, na ruga do lençol, na mancha do tapete etc
Na conscientização o foco é no reconhecer o que estou sentindo, nomear e localizar no corpo essas sensações.
Temos um cérebro que pensa, raciocina, planeja, lê, escreve, memoriza etc = mente grosseira
Temos uma mente sutil que sente.
Temos uma mente muito sutil (secreta) que está além dos sofrimentos, uma mente já livre e luminosa, essência da vida, que quer se expressar sem fronteiras.
Aprendo a estabilizar no silêncio a mente grosseira, os pensamentos e onde quero colocar o foco – domestico o cérebro.
Depois, treino conscientizar no silêncio o que o corpo sente através da atenção na respiração, as sensações que surgem.
Com estes 2 exercícios surgem insights das fixações, das aflições, das marcas mentais e dos obscurecimentos mentais - temas sobre o que trabalhar em terapia e no autoconhecimento.
Na dissolução desses véus vou despertando minha verdadeira natureza livre e a mente muito sutil se expressa na alegria para o beneficio de todos os seres.
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Nas tempestades da vida
“No meio da tempestade da vida, encontre refúgio em si mesmo” Thich Nhat Hanh
A morte é uma realidade que tira a estabilidade; principalmente quando ela é repentina. Quando ela é uma escolha.
Um susto.
Nessa hora é preciso encontrar um refugio e o lugar mais seguro deveria ser dentro de si mesmo.Deveria...
A vida é como um oceano e vez por outra, o mar fica turbulento, ondas se levantam; as águas mudam de cor. Mas depois, vai se acalmar novamente.
Encontrar esse lugar seguro muitas vezes é difícil porque a dor turva a vista e fica difícil encontrar a porta; nessa hora o caminho da espiritualidade é o melhor aliado, como disse a amiga Leia abraçada a mim enquanto eu chorava: que bom ter um caminho espiritual para se apoiar.
Isto não estava nos planos; aliás...a morte “prematura”, nos nossos planos ( mesmo na terceira idade) nunca está nos planos.
Na verdade eu chorava o choro que estava segurando há dias ou... anos; chorava pela falta de dialogo, pelos desencontros, pelos mistérios, pelo que não foi possível. Penso que chorava de cansaço de uma estrada que tinha tido vários buracos inesperados, encontros e desencontros. Uma estrada que finalmente tinha chegado ao seu final inesperadamente.
Mas chorava também de gratidão pelas descobertas e experiências importantes que um casamento sempre oferece.
Quinze dias já passaram; apoiada por varias sessões de Reiki , mantras e pelas “poções mágicas de Sabedoria ( Sophia)” , a serenidade está voltando, o susto se acomodando , silenciosamente, já me faço boa companhia e vou “voltando para casa”.
Não há mais explicações para esperar, nada a reclamar e nada a desculpar.
Realmente, o melhor refúgio é dentro da casa que construo e reconstruo a cada episódio em mim mesma.
Como disse o neto Thiago: vida que segue!
Tudo é um fluxo constante.
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Nada é sempre igual
Durante nosso encontro semanal a amiga Silvia comentou que nestas quase 2 décadas que mora perto do mar, a praia é diferente todos os dias.
Realmente. Nem a praia nem nenhum dia, nem nenhuma ida a padaria comprar pão, nem nenhuma revisita ao dentista, nenhuma manhã, nenhum entardecer, nenhuma viagem de elevador, nenhum sonho noturno, nem eu nem você.
A vida é mudança continua.
Tudo é novo a cada momento.
Acordamos todos os dias já diferentes.
Os outros acordam todos os dias diferentes.
O que precisa permanecer é a curiosidade em descobrir o que mudou. Um olhar de interesse.Dar uma chance para o novo.
O budismo fala: dar espaço para o novo.
Não tentar fixar as coisas, nem as pessoas, nem nós mesmos nas mesmas bolhas.
Vivemos e a vida vive, em bolhas de histórias; todas vão estourar, umas demoram mais porque revestimos suas paredes com material de sonhos mais rígidos, mas elas com certeza, mais cedo ou mais tarde vão estourar.
Bolhas estouram, outras surgem, sempre surgem, novinhas repletas de novidades para descobrir, viver e largar.
A brincadeira é essa, esperar pela próxima enquanto vamos tentando descobrir a verdadeira natureza de todas as coisas, a natureza livre de tudo e de todos.
Como diz na sadana que usamos para fazer a dedicação final durante os encontros:
Possa eu claramente perceber todas as experiências como sendo tão insubstanciais quanto o tecido do sonho durante a noite e imediatamente despertar para perceber a manifestação de sabedoria pura no surgir de cada fenômeno.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Cuidado com as decepções
Aprendemos a ter expectativas desde cedo; elas são um perigo....
Expectativas sobre as pessoas, sobre as promessas, sobre sonhos e desejos.
Um dia descobrimos que a vida é uma linha contínua e impermanente... vai mudando, mudando, mudando e seguindo rumos inesperados muitas vezes.
Lembro de um Mestre carismático, lembro de um romance promissor, lembro de uma carreira colorida, lembro de uma visita muito esperada, lembro de uma mudança que seria muito divertida e enriquecedora, lembro de muros, lembro de paredes grossas, lembro de ferias ensolaradas libertadoras, lembro da herança prometida, lembro do trapézio seguro... que simplesmente viraram...pó de lembranças amargas.
A culpa? Das minhas expectativas; das nossas expectativas.
E o que fazemos com as decepções que chegam junto? o que fazemos com essas raivas?
Raivas quentes – chorar, reclamar, quebrar, agredir.
Raivas frias – engolir, calar, vingar, separar, disfarçar, sumir.
Melhor acolher; entender que a vida é cheia de surpresas, que muitas vezes esses “desastres” estão nos ensinando e nos protegendo.
Expectativas fazem parte de nossa humanidade; mas faz parte também, aprender a se despedir dos nossos doces sonhos.
Recuperar a liberdade e autonomia que chega quando as raivas são dissolvidas.
Libertar os “culpados” para o caminho ficar mais leve e divertido.
E.... nos preparar para os próximos sonhos, novos amores, próximos projetos que só chegarão quando estivermos prontos para novas decepções....se chegarem.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Hora de desistir
Minha mãe foi uma pessoa, na minha visão, que levou a vida de forma bastante rígida.
Anos antes de sua morte comentei que eu via varias mudanças em suas atitudes e palavras, respondendo de forma mais leve às situações.
Ela abaixou a cabeça, silenciou alguns instantes e respondeu:”não mudei, eu desisti.”.....
Essa palavra, desistir, causou uma marca forte no meu coração.
Talvez seja inteligente desistir da rigidez mais cedo, tornar a vida menos confusa.
Daí refletindo dá para alargar um pouco essa ideia:
• Desistir de tentar controlar a vida e os outros
• Desistir de ter sempre razão
• Desistir de precisar da aprovação dos outros
• Desistir de querer “aparecer sempre bem na fita”
• Desistir de defender nossas propriedades e limites
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Sangha - amigos praticantes
Sangha é um “grupo de apoio” onde nos refugiamos para mergulhar em nós mesmos e tentar compreender as complexidades da vida e das confusões que nos rodeiam.
Por isso ela é uma das 3 preciosidades; as outras são a busca pela compreensão (Darma) e Buda como figura de inspiração.
Ensinamentos de 2 grandes Mestres: Thich Nhat Hanh e Lama Yeshe
“A Sangha não é um lugar para se esconder de forma a se evitar responsabilidades. A Sangha é um lugar para praticar, para a transformação e a cura do ego e da sociedade. Quando você é forte, pode estar presente de forma a ajudar a sociedade.
Tomar refúgio na Sangha ajuda restabelecer sua força, seu entendimento, sua compaixão, sua confiança.
De forma a conseguirmos desenvolver algumas raízes, precisamos de um tipo de ambiente que nos ajude a nos tornar enraizados.
Quando praticamos respiração consciente, sorrindo, descansando, andando ou trabalhando, nos tornamos um elemento positivo na sociedade e inspiraremos confiança em todos ao nosso redor. Este é o caminho para evitar deixar o desespero nos derrotar.
Estar em uma Sangha e ser apoiado por um grupo de amigos que estão motivados pelo mesmo ideal e prática, ajuda ir mais longe.
Ter uma Sangha que nos dê suporte, ajuda nutrir nossa bodhicitta (o desejo forte de cultivar amor e entendimento em nós mesmos).
A Sangha é o solo e somos a semente. Não importa o quanto seja bonita e vigorosa nossa semente, se o solo não nos provê vitalidade, nossa semente morrerá.
Se ficamos muito tempo longe da Sanga, o ambiente com suas muitas distrações, nos leva para “longe” de nós mesmos e dos outros.
Porque a atenção plena correta para alguém que apenas começou na prática é ainda fraca. Como a maioria das pessoas ao nosso redor é levada pelos cinco desejos, é este ambiente que nos arrasta e nos impede de praticar a atenção plena correta.
Para praticar a atenção plena correta precisamos de um ambiente correto e este é a nossa Sangha. Sem uma Sangha, somos fracos. Em uma sociedade onde todos estão correndo, todos estão sendo levados pelas suas energias de hábito, a prática é muito difícil. É por isso que a Sangha é a nossa salvação. Uma Sangha onde todos estão praticando a caminhada atenta, fala atenciosa, alimentação consciente parece ser a única chance para termos sucesso para terminar o círculo vicioso.
Seja quando for que nos encontremos em uma situação difícil, dois ou três amigos na Sangha estão lá para nós, entendendo e nos ajudando e nos farão superar tudo. Mesmo na nossa prática silenciosa, ajudamos uns aos outros.
Na minha tradição dizemos que quando um tigre deixa a montanha e vai ao vale, será capturado por humanos e morto. Quando um praticante deixa sua Sangha, abandona sua prática depois de alguns meses..”
(Traduzido do livro “Friends on the path” – Thich Nhat Hanh)
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“Estar junto com outros praticantes e concentrar nossa mente no mesmo espaço nos dá uma grande inspiração.
É muito melhor fazer pratica junto (puja) do que sozinho no nosso quarto.
No meu colégio se comparava um grupo de puja a uma vassoura de palha. Você não pode varrer muito chão com apenas um fiapo de palha, mas com vários amarrados para formar uma vassoura, você pode rapidamente limpar a sala da assembleia inteira.
Embora vários praticantes solitários como Milarepa tenha tido sucesso sós, nós ainda não estamos prontos.
É melhor que estejamos juntos para desenvolver o foco da mente. A mente de cem pessoas reunidas num mesmo lugar é muito poderosa.”
Lama Yeshe
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